Primeiramente, os estudantes da USP têm uma pauta específica aprovada em assembleia: no início do movimento éramos contra a repressão na universidade – que permanecia principalmente após o não cumprimento por parte da reitora do acordo feito entre os três setores da universidade (professores, funcionários e estudantes) e a reitoria o qual dizia que nenhum participante da greve de 2007 fosse prejudicado judicial ou politicamente –; contra a UNIVESP – leiamos bem: não contra a educação à distância, mas contra a UNIVESP e o jeito que ela vem sendo imposta, com argumentos de que é uma forma de inclusão daqueles que não conseguem entrar na universidade. Ora, não seria mais sensato pensar num jeito de mudar esse mecanismo de entrada na universidade e inclusão – que é o vestibular – do que simplesmente criar mais um mecanismo que sequer possui uma discussão sobre sua implementação ou uma verba garantida? A UNIVESP faz parte de um contexto histórico de imposições do governo Serra em que se encontram falas da antiga secretária da educação de que fecharia os cursos de pedagogia, por exemplo, pois “estes não formam direito os professores”. E, por fim, a favor de maior verba para a educação.

As decisões tomadas pelas categorias sobre as condutas do movimento, bem como sobre pautas, representantes e comissões são feitas sempre num âmbito coletivo e democrático o qual garante as discussões entre opiniões divergentes para que cheguemos a um consenso, ou então para que votemos diretamente sobre as condutas a serem tomadas no movimento: a assembleia.

O que vemos é uma não-participação daqueles que são contra a greve ou até mesmo contra as organizações das categorias - professores, estudantes e funcionários - e consequentes cochichos entre eles que chegam às mídias fortemente. O direito de resposta nem sempre é garantido. Se o faz é com manipulações de editores. Então, por sabermos disso, muitas vezes simplesmente decidimos por não dar entrevistas ou afins, para não sermos manipulados.

Esse boicote e omissão dessas pessoas contra o movimento só nos mostra a deslegitimação de âmbitos coletivos, os quais primam o debate e defendem a decisão do coletivo. Posso tentar entender os motivos pelos quais elas não participam de assembleias e movimentos coletivos: é desgastante, exige muita energia e muitas vezes nos deparamos com concepções, ideias e encaminhamentos incabíveis no movimento, porém o lugar para que tentemos convencer as pessoas de nossas concepções e ir contra ou a favor de outras é sim nesses âmbitos coletivos e por isso devemos legitimá-los e dar a eles sua devida importância. A greve não é individual, mas sim decidida e organizada em espaços coletivos e democráticos. Se desistimos por ficarmos inconformados às vezes, nos acomodamos e não é essa a ideia.

Sou estudante da Faculdade de Educação da USP e conheço muita gente que é contra a greve assim como contra algumas condutas do movimento estudantil, mas que apóia as decisões tomadas no coletivo simplesmente porque julgam ser este um espaço legítimo e de construção. Infelizmente a individualidade toma conta de muita gente de modo que só se dá conta do que está acontecendo quando “a biblioteca da faculdade fecha”, “o bandejão fecha”, “o circular não funciona”, “nem os laboratórios”, ou seja, quando a greve afeta o próprio umbigo. O argumento é que essas pessoas querem apenas estudar e que aqueles que fazem a greve são desocupados e delinqüentes. Minha intenção aqui não é sensacionalizar – se é que essa palavra existe –, porém, não conheço um estudante que participa da greve que não trabalha fora e que também não teme em ser prejudicado por alguns professores que insistem em dar aulas, provas e trabalhos.

A entrada da PM no campus é uma afronta à comunidade e acima de tudo uma incapacidade da reitora em administrar a universidade. A partir do momento em que ela chama a PM, delega toda a autoridade a essa instância e a perde, perdendo também a possibilidade de reabrir as negociações com os três setores – que foram unilateralmente paradas por ela. Dessa forma, perde sua credibilidade como gestora. Polícia não entra em escola. A gestão escolar deve ser capaz de resolver seus problemas internos – mesmo que estes englobem políticas externas – e a reitora não deu conta disso.

Saibamos, antes de nos expressar, o que de fato está acontecendo na universidade, tendo a noção de que isso faz parte de condutas governamentais do Estado. É lamentável a (não ou im) posição do governador que se exime de qualquer responsabilidade sobre as atitudes da reitora e da PM.

E saibamos não mediante apenas à imprensa, que coloca a reitora como vítima e diz que é uma pena os estudantes não tentarem um diálogo com ela – lembrando que quem travou as negociações foi a própria –, quando não defende a PM no campus, mas mediante conversas com quem participa das reivindicações, bem como por meio de blogs e sites das próprias organizações dos três setores (posso indicar os sites oficiais dos três setores: Funcionários – www.sintusp.org ; Professores – www.adusp.org.br e Estudantes – www.dceusp.org.br). Mais uma vez, não busco o sensacionalismo, mas uma visão que leve em conta todos os lados de forma justa. Não fechemos os olhos, pois isso nos leva à omissão e deslegitimação dos movimentos que ainda buscam alguma melhora no ensino e nas organizações públicas.

É por esses e outros motivos que agora as pautas estudantis, assim como dos funcionários e professores, levantam bandeiras como “Fora Suely”, “Fora PM do campus”, “Diretas já para reitor” e “Por uma nova Estatuinte” – a atual da USP data da época da ditadura militar.