A pergunta desconsidera uma visão mais complexa da universidade, e o texto que se segue à questão trata-nos todos, funcionários, como um corpo homogêneo e débil, desconsiderando inclusive o fato de que em todos os setores da sociedade existem controvérsias sobre a competência dos trabalhadores. Se não quisermos sair do âmbito dos serviços públicos, note-se que existem advogados mais e menos competentes, médicos mais e menos comprometidos, engenheiros que abrem crateras construindo o metrô, fiscais corruptos e policiais militares criminosos. Saindo do âmbito público poderíamos começar mesmo pelos jornalistas, que em muitos casos se tornaram meros técnicos (e em alguns casos péssimos técnicos) a serviço irreflexivo das ideologias dos editores.

Os funcionários da USP estão diretamente envolvidos na produção de conhecimento da universidade: seja atuantes em pesquisas e laboratórios, seja nos setores técnicos como o de informática, seja nos setores educativos que permeiam os projetos de extensão universitária, as bibliotecas, os museus, as creches, as pré-escolas e a escola de aplicação, seja nos setores burocráticos, ou nos variados tipos de apoio a essas atividades. Atividades às quais nos dedicamos, e que são em grande parte referências até mesmo internacionais.

O ato realizado no dia 09/06/2009 foi deliberado por professores, funcionários e estudantes, e todas as categorias foram repreendidas pela polícia, sendo que alguns professores, na tentativa de se colocarem como negociadores para o fim da ação policial, foram sumariamente agredidos, o que explica a indignação de muitos que apenas agora se dão conta de que o autoritarismo impera na gestão de uma universidade que deveria ter maior respeito e apreço por aqueles que a tornam a maior universidade do sub-continente.

O que querem de mais imediato, neste momento, estudantes, funcionários e professores é, além da retirada da PM do campus, a negociação por meio do diálogo, a qual a reitoria divulga como sua opção nos meio de comunicação, mas que de fato não tem existido. E para muito além do diálogo para retirada da PM, precisamos do diálogo permanente sobre todas as questões que debatemos nas categorias, mas para as quais não existe um fórum democrático, seja a Univesp, a mudança do obsoleto estatuto, as decisões orçamentárias, as irregularidades nas contratações que ameaçam nossos empregos etc. Um exemplo da falta de diálogo é o fato de que a gestão da reitora Suely Vilela reduziu seu contato com o sindicato a uma conversa acada dois meses, como se tratasse de um atendimento qualquer.

O que a reitoria quer fazer crer é que um pequeno grupo de funcionários, estudantes e professores desinformados e baderneiros querem destituir a ordem na USP e destruir o patrimônio público (coisa para a qual a PM foi mais eficiente na última terça-feira). Quer fazer crer que os alunos são seres ingênuos e irracionais manipulados por organizações e sindicatos. Que a única forma de solucionar conflitos é a criminalização dos movimentos sociais.

Ora, chegamos a ter nossas divergências internas mesmo entre as categorias, em relação a avaliações de conjuntura e formas de atuação, mas não é de modo algum uma pequena minoria que enxerga as questões já citadas como, no mínimo, polêmicas. Deste modo, acredito que existem muitas formas de resistência, mesmo entre aqueles que militam com menos intensidade.

Hoje, 12/06/2009 publicou-se um artigo do professor Vladimir Safatle na Folha de São Paulo em que ele critica a presença da Polícia Militar no campus, afirmando que “vários professores, como eu, que nunca participaram de movimento sindical, que nem sequer foram alguma vez a uma assembléia, vêem com estarrecimento a disseminação da crença de que conflitos trabalhistas devem ser resolvidos apelando sistematicamente à polícia”.

Uma fala desse tipo é bem vinda, mas vale destacar que apesar de se posicionar contra o autoritarismo viabilizado pela força policial, em primeiro lugar, ignora que as nossas reivindicações como funcionários não são meramente trabalhistas. Em segundo lugar, ignora que a intervenção policial não atingiu apenas funcionários. E em terceiro lugar, reforça idéias que apontam para a criminalização das organizações e da participação política, como se participar de assembléias fosse em si um ato subversivo, e organizar-se em sindicatos fosse prática condenável. Não acredito que tenha sido a intenção do professor, mas demonstra como essas idéias estão subliminarmente muito difundidas.

Quanto ao sindicato, tem sido a nossa ferramenta legítima. Principalmente daqueles funcionários que, mesmo que desempenhando com excelência sua função, pela falta de oportunidades que impõe a desigualdade social, muitas vezes não conseguem mesmo compreender seu contrato de trabalho. As eleições para o sindicato são de todos, e a inscrição de chapas também, sendo que a filiação não é obrigatória. Deste modo, convido aqueles que não se sentem representados a se movimentarem, pois considero muito desleal esse posicionamento político pelo simples boicote, ou pela deslegitimação da arena política tendo como arma a hegemonia dos meios de comunicação.